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Leo Szilard e o segredo da bomba atômica

Século XX

O físico húngaro Leo Szilard foi o principal estimulador da criação do projeto Manhattan, nos Estados Unidos, na década de 1940, que deu origem às bombas atômicas.
Primeiro reator nuclear concebido em Chicago, EUA
Primeiro reator nuclear concebido em Chicago, EUA
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Que o uso da ciência e da tecnologia foi imprescindível para o desenvolvimento das guerras modernas (conflitos que se desencadearam no mundo sobretudo após o advento da Revolução Industrial, no século XVIII) é fato cabal. No entanto, o fato de a mesma ciência e a mesma tecnologia serem capazes de levar a humanidade à extinção, até o início dos anos 1930, constituía uma hipótese que só era abordada pela ficção científica. O fato é que essa hipótese começou a se tornar viável a partir da combinação das equações de Einstein sobre a teoria da relatividade com os experimentos sobre radioatividade, levados a cabo por pesquisadores como o casal Marie e Pierre Curie. A associação entre esses dois campos conduziu um pesquisador, em especial, a elaborar teses sobre a possibilidade da invenção de uma bomba atômica. Esse pesquisador era o húngaro Leo Szilard.

Szilard era um físico de renome que chegou a tentar desenvolver uma ampla pesquisa, com Albert Einstein, sobre o sistema de refrigeração caseira. Todavia, foi o terreno da fissão nuclear e a consequente liberação de energia desse processo que atraíram o húngaro. Entre 1923 e 1932, Szilard trabalhou como professor e pesquisador na Universidade de Berlim, Alemanha. Do mesmo modo que muitos de seus colegas, Szilard viu a ascensão do nazismo nesse país e decidiu ir para a Inglaterra. A saída de Szilard ocorreu em um momento em que ele trabalhava intensamente na possibilidade de manipular artificialmente a energia liberada pela estrutura nuclear do átomo, isto é, conseguir o “segredo da bomba atômica”. Como diz o pesquisador P. D. Smith, em seu livro Os homens do fim do mundo – o verdadeiro doutor fantástico e o sonho da arma total, a respeito da relação do físico húngaro com a física austríaca Lise Meitner, uma das responsáveis pela descoberta do processo de fissão do átomo:

Em 1932, Szilard contatou Lise Meitner no Instituto Kaiser Wilhelm de Química, em Dahlem, a propósito de uma colaboração em experimentos nucleares. Embora os dois tivessem trabalhado juntos como professores, Meitner tinha dúvidas sobre se os conhecimentos de Szilard no campo da estatística e da teoria das probabilidades o credenciavam como parceiro adequado para as tentativas que ela vinha desenvolvendo no sentido de decifrar a estrutura do núcleo atômico. É interessante especular sobre o que poderia ter acontecido se os dois tivessem realmente começado a trabalhar juntos em 1932. Em poucos meses, Szilard descobriria como usar o nêutron para liberar o poder do átomo. Mas nesse momento, com a chegada do fascismo, Szilard deixava a Alemanha, indo para a Inglaterra. Se ele tivesse permanecido, é possível que a Alemanha, e não os Aliados, houvesse descoberto o segredo da bomba atômica. [1]

A ascensão do nazismo, entretanto, impediu que Szilard participasse da referida descoberta sobre a fissão, que foi efetuada pelo grupo de outro físico, Otto Hahn, em 1938. Todavia, a descoberta de Hahn só contribuiu para aumentar a obsessão de Szilard de construir uma arma com tal tecnologia. Da Inglaterra, Szilard deslocou-se para os Estados Unidos, onde conheceu o italiano Enrico Fermi, em Chicago, no início dos anos 1940. Fermi foi o responsável pela construção do primeiro reator nuclear, chamado de CP-1, uma estrutura de seis metros de altura por oito de largura que comportava 57 camadas de blocos de grafite talhados à mão. A cada fila de grafite maciço, seguia outra com grafites perfurados, nos quais estavam inseridos lingotes do elemento químico Urânio. A invenção de Fermi entusiasmou ainda mais Szilard, que começou a trabalhar com o físico italiano no sentido de manipular melhor as reações atômicas.

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Ao tempo em que desenvolvia suas pesquisas, Szilard preocupava-se, também obsessivamente, com o desenvolvimento da Segunda Guerra e com a possibilidade de os nazistas, que ainda estavam de posse de alguns dos melhores físicos europeus da época, conseguirem ser os primeiros a inventarem uma bomba à base de fissão atômica. Essa hipótese levou Szilard a tentar convencer as autoridades militares e políticas dos Estados Unidos a desenvolverem um programa de construção da bomba atômica. Szilard chegou a persuadir Albert Einstein a assinar uma carta, com ele, para que fosse realizado tal programa. O então presidente dos EUA, F.D. Roosevelt, achou oportuno e estratégico acatar o pedido de Szilard e autorizou a criação do programa, que foi batizado de Projeto Manhattan. Os principais coordenadores do projeto foram o físico americano J. Robert Oppenheimer e o militar Leslie Groves.

O Projeto Manhattan, que contou com a colaboração de Szilard e Fermi, conseguiu em três anos construir um amplo complexo para exploração de minério, refinamento e enriquecimento em usina nuclear – tudo isso como forma de mobilização para a construção da bomba. Para Szilard, a ideia de uma arma nuclear deveria funcionar como um recurso de última instância, isto é, deveria existir apenas enquanto possibilidade de uso, apenas para demonstração de potência de destruição. O problema é que o uso ou não uso de uma arma como essa não dependia de físicos, mas, sim, dos atores políticos. Tão logo conseguiram fazer detonar o primeiro protótipo da bomba nuclear, chamado “Trinity”, no deserto de Los Alamos, Novo México, as autoridades americanas já pensaram em uma forma de intimidar a outra potência que vinha se sobressaindo na guerra, a União Soviética.

Ainda que sob forte protesto de Szilard, de Einstein e de outros cientistas, em agosto de 1945, os Estados Unidos detonaram duas bombas atômicas sobre o solo japonês, uma feita de Urânio, lançada sobre a cidade de Hiroshima, e outra, à base de Plutônio, na cidade de Nagasaki. O sonho da “arma total” como expressão de triunfo da ciência havia se realizado, mas os “monstros” que com ele foram despertados ainda rondam a humanidade.

NOTAS

[1] SMITH, P.D. Os homens do fim do mundo – o verdadeiro doutor fantástico e o sonho da arma total. Trad. José Viegas Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. pp. 230-31.


Por Me. Cláudio Fernandes

SÉCULO XVI AO XIX
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