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Primeira Guerra Mundial na poesia de Georg Trakl

Século XX

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Sabe-se que a Primeira Guerra Mundial foi um acontecimento considerado tão catastrófico que chegou a ser denominado de “apocalíptico” por seus contemporâneos. Se comparada com os conflitos bélicos anteriores a ela, a Primeira Guerra mostrou-se a mais violenta e a mais modernamente mortífera, pois conseguiu mobilizar toda uma indústria sofisticada ao seu redor. Vários foram os relatos literários produzidos por combatentes que vivenciaram essa guerra e sua atmosfera de terror, que se constituiu por meio do uso de gases tóxicos nas batalhas, dos bombardeios incessantes e do cotidiano dentro das trincheiras.

Entre os mais notórios escritores que vivenciaram a Primeira Guerra estão: J. R.R. Tolkien, Erich Maria Remarke e Ernst Jünger. Soma-se a esses o poeta austríaco Georg Trakl, considerado um dos mais importantes poetas expressionistas de língua alemã, apesar de ter falecido com apenas 27 anos de idade.

Georg Trakl nasceu na cidade austríaca de Salzburgo, em 1887, no seio de uma família protestante. Completou seus estudos em Viena, onde também obteve o grau de mestre em Farmácia. Essa profissão lhe deu, a um só tempo, perspectivas financeiras e o cultivo do vício. Trakl tornou-se viciado em veronal, clorofórmio, ópio e cocaína. Quando estourou o conflito mundial, que expôs ao mundo a máquina de guerra alemã, Trakl serviu como combatente e farmacêutico oficial de um batalhão austríaco.

Antes, porém, de entrar na guerra, Trakl já havia iniciado sua carreira literária, sobretudo a escrita poética, para a qual se dedicava com o maior afinco. Seus poemas, até o ano de 1913, já possuíam um tom melancólico e uma atmosfera sombria povoada de imagens oníricas. O sono, o sonho e a realidade transfigurada em imagens de terror e desalento foram os temas principais de Trakl. Além disso, em seus poemas, aparecia com frequência a figura de uma de suas irmãs.

A partir de 1914, quando Trakl passou a viver a experiência da guerra, alguns de seus poemas refletiram explicitamente as situações de horror que presenciou. A forte influência da poesia simbolista francesa contribuiu para que Trakl conseguisse capturar tais situações. Após a Batalha de Grodek, na Polônia, por exemplo, Trakl teve que cuidar, sozinho, de mais de 90 soldados feridos. Tais soldados encontravam-se em um celeiro com ferimentos que apodreciam à vista. Fora do celeiro, vários corpos de camponeses também apodreciam, pois haviam sido assassinados pelas tropas austríacas sob acusação de colaboração com os russos.

A situação era desalentadora e rendeu a Trakl o poema “Grodek”, de 1914, do qual se pode ler os seguintes versos:

À tarde soam as florestas outonais/ De armas mortíferas, as planícies douradas./ E lagos azuis, por cima do sol/ Mais sombrio rola; a noite envolve/ Guerreiros em agonia, o lamento selvagem/ De suas bocas dilaceradas./ […] “Todos os caminhos desembocam em negra putrefação.”[1]

A “negra putrefação” converteu-se na paisagem principal dos dias de Trakl em Grodek. Em outro poema, intitulado “Lamento”, também de 1914, é possível sentir a angústia de seu autor em meio à carnificina da guerra:

Sono e morte, as tenebrosas águias/ Rodeiam noite adentro essa cabeça:/ A imagem dourada do Homem/ Engolida pela onda fria/ Da eternidade. […] Em medonhos recifes./ despedaça-se o corpo purpúreo/ E a voz escura lamenta/ Sobre o mar./ Irmã de tempestuosa melancolia/ Vê, um barco aflito afunda/ Sob estrelas,/ Sob o rosto calado na noite.[2]

Trakl anteviu, nesse poema, o fim de uma era (“a imagem dourada do Homem”), que foi rompida pela catástrofe da guerra total, e prenunciou outra, terrível, com a imagem do “corpo purpúreo” que se despedaça. Georg Trakl suicidou-se em 3 de novembro de 1914 com uma overdose de cocaína. Ainda em vida, foi muito prestigiado pelos filósofos Martim Heidegger e Ludwig Wittgenstein e pelo também poeta Rainer Maria Rilke.

NOTAS:

[1] TRAKL, Georg. De profundis e outros poemas. Trad. Cláudia Cavalcanti. São Paulo: Iluminuras, 2010. p. 79.

[2] Idem. p. 77.

*Créditos da imagem: Shutterstock e rook76.


Por Me. Cláudio Fernandes

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