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Guerra e Trabalho no pensamento de Ernst Jünger

Século XX

Guerra e trabalho foram dois conceitos importantes no pensamento do escritor alemão Ernst Jünger, que produziu uma densa reflexão em seu ensaio “A mobilização Total”.
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O escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998) foi um dos mais expressivos prosadores e ensaístas do século XX. Membro do exército alemão, foi combatente na Primeira Guerra Mundial e, assim como outros escritores que também dela participaram, como J. R. R. Tolkien e Erich Maria Remarque, a ambiência catastrófica sobrepassou boa parte de sua obra. O romance “Tempestades de Aço” tornou-se um dos mais crus e realistas retratos da Primeira Guerra. Entretanto, Jünger destacou-se também pelas reflexões que empreendeu a respeito da radical transformação que a guerra moderna (expressa pela Primeira Guerra Mundial de 1914) provocou na concepção de trabalho da população europeia nos anos 1920 e 1930.

Em seu ensaio “A mobilização total”, publicado em 1930, Jünger procurou entender a diferença elementar que existia entre a Grande Guerra deflagrada em 1914 e as guerras anteriores. A primeira e mais impactante diferença residia na questão da modernização dos exércitos, sobretudo o exército alemão, do qual o escritor fez parte. O desenvolvimento tecnológico proporcionado pela Segunda Revolução Industrial, que possibilitou a criação de máquinas eficientes e complexas, foi também direcionado à guerra. Sendo assim, o poder mortífero das armas utilizadas na Primeira Guerra era infinitamente superior ao das guerras travadas no século XIX, como a Guerra Franco-Prussiana.

As outras diferenças principais eram: 1) o tipo de soldado que engrossava as fileiras da Primeira Guerra Mundial era basicamente um “espelho” dos homens que engrossavam as filas das indústrias e dos grandes centros urbanos da virada do século XIX para o século XX. O crescimento demográfico provocado pelo advento da indústria produziu novos caracteres humanos; 2) essa massa de homens que compunha os exércitos que se enfrentaram na guerra tinha como correspondente um outra massa que se engajava também, mas produzindo armas e munições nas fábricas. Sendo assim, o mundo da guerra (com a “produção em série de mortos”) era seguido pelo mundo do trabalho (com a produção em série de artigos mortíferos).

A essa relação ubíqua de produção, tanto nos campos de batalha quanto nas fábricas (mas também no cotidiano das casas, nas ruas, etc.), Jünger deu o nome de “mobilização total”. Esse conceito visava expressar o caráter coletivista da sociedade que emergia no começo do século XX. Em um trecho de seu ensaio, Jünger afirmou:

Assim: também a imagem da guerra como um negócio armado, cada vez mais, deságua na imagem amplificada de um gigantesco processo de trabalho. Ao lado dos exércitos que se entrechocam nos campos de batalha, surgem os novos tipos de exército: o do trânsito, o da alimentação, o da indústria armamentista - o exército do trabalho em geral. Na última fase, que já se insinuava por volta do fim desta última guerra, não ocorreu mais nenhum movimento - mesmo o de uma dona-de-casa junto à sua máquina de costura - no qual não residisse ao menos uma função mediatamente bélica. Nessa captação absoluta da energia potencial, que transformou os Estados industriais beligerantes em vulcânicas oficinas siderúrgicas, anuncia-se, talvez do modo mais evidente, o despontar da era do trabalho - essa captação faz da guerra mundial um fenômeno histórico cujo significado é muito mais importante que o da Revolução Francesa.” [Jünger, Ernst. (2002). A mobilização total. Natureza humana, 4(1), 189-216. Recuperado em 25 de novembro de 2014.]

A “energia potencial” de que fala Jünger seria canalizada e administrada, nos anos 1920 e 1930, pelos regimes políticos totalitários, como o fascismo e o nazismo. Não é à toa que esses regimes proporcionavam uma idolatria ao mundo do trabalho e ao corpo tanto de operários quanto de soldados. A “potência” para construção (trabalho) e para destruição (guerra), essencialmente ambivalente, era o húmus do totalitarismo.

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* Créditos da imagem: Shutterstock e rook76

 

Por Me. Cláudio Fernandes

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